Reflexões aleatórias

Publicado: 11 de abril de 2011 em Uncategorized
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Sergio Gagliardi-Gag, 31 de março às 21:53

Me parece que há décadas os esforços oficiais de urbanização estão a serviço do esvaziamento das ruas. Herança da ditadura militar, talvez, quando mais que quatro amigos conversando numa esquina era um ato subversivo.

Nada que lembre as ruas dessa cidade nas décadas de 40 ou 50, época em que praças, bares e cinemas eram os grandes ambientes de sociabilização, pontos de encontro onde se cozinhava a literatura, a filosofia, a política e as artes.

Não por acaso as ruas hoje são apenas espaços de passagem, obstáculos entre origem e destino, lugares assustadores, fonte de stress e medo. Todo o pensamento oficial trabalha construindo esse mito e a ocupação do espaço público com arte, grafite, música só acontece em circunstâncias mediadas e controladas pelo estado.

Será essa mediação formal do estado uma contingência inerente ao convívio numa metrópole como a nossa ou será apenas uma acomodação burguesa bem alienada?

A própria assimilação do grafite pelos meios tradicionais do mercado indica um caminho contraditório, mas pode certamente fortalecer o diálogo entre a rua e os circuitos formalizados de arte.

Me ocorreram essas considerações conforme evoluía minha aproximação com o MAOU. O Movimento Artístico de Ocupação Urbana tem tantas possibilidades e tantas justificativas que precisei de tempo pra assimilar esse potencial e me familiarizar com as diversas motivações que o sustenta.

Por que ir pra rua? Porque ela é nossa e tem sido negada sistematicamente pelos modelos de urbanização que nos tem sido impostos.

Por que ocupar com arte espaços vazios? Pelo prazer da arte. Pela necessidade da arte. Pela urgência em provocar a reflexão sobre o uso do espaço urbano. Em nome da busca daquela rua… rua como espaço de encontros, de troca de idéias, de surgimento do sentimento público.

***

Tivemos um estranho encontro com o proprietário de uma grande área industrial abandonada na zona norte de São Paulo. Sua presença ali, entre alguns aventureiros idealistas já demonstrava algum interesse. Seria o desejo de minimizar o impacto potencial que uma ocupação de centenas de artistas poderia trazer ao seu imóvel? Seria uma vontade legítima de conhecer melhor nossas intenções? Seria uma prospecção para manipular nossa ocupação de forma a obter benefícios?

Difícil dizer, superficial que foi nosso bate-papo de vinte minutos. Mas, como em tantos casos referentes aos caminhos da urbanização, a pressão imobiliária desempenha um papel importante ali.

É assim na Nova Luz, no Itaquerão, no Panamby, na Faria Lima. Não seria diferente nessa área imensa, com potencial incrível de exploração às margens da rodovia dos Bandeirantes. O Cara tá com medo de queimar o filme com o Estado, mas teme também queimar o filme com a comunidade. Se bem que seu perfil não é exatamente o de quem se preocupa com o povo… a não ser quando percebe que uma movimentação popular pode atrapalhar seus planos, ou ajudar. Nesse sentido, cabe a nós pensar se queremos propor direta ou indiretamente a força, os benefícios e as complicações que podem advir da nossa parceria…

Caros MAOUs, são considerações de fim de noite, fim de garrafa, mas fruto das reflexões acumuladas nesses meses de importante e prazeroso convívio.

Abraços, gag

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“O M.A.O.U-Movimento Artístico de Ocupação Urbana agradece sua manifestação. Sua participação é importante para que os produtores culturais do movimento conheçam os anseios da sociedade”.

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